segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O anjo, o santo e o pecador.

O pecador escutava a orientação de um santo que vivia genuflexo, à porta de templo antigo, quando, junto aos dois, um anjo surgiu na forma de homem, travando-se breve conversação entre eles.

O anjo – amigos, Deus seja louvado!
O santo – louvado seja Deus!
O pecador – louvado seja!
O anjo dirigindo-se ao santo – vejo que permaneceis em oração e animo-me a solicitar-vos apoio fraternal.
O santo – espero o altíssimo em adoração dia e noite.
O anjo – em nome dele, rogo o socorro de alguém para uma criança que agoniza num lupanar.
O santo – não posso abeirar-me de lugares impuros.
O pecador – sou um pobre penitente e posso ajudar-vos, senhor.
O anjo – igualmente agora, desencarnou infortunado homicida, entre as paredes do cárcere.
Quem me emprestará mãos amigas para dar-lhe sepulcro?
O santo – tenho horror aos criminosos ...
O pecador – senhor disponha de mim.
O anjo – infeliz mulher embriagou-se num bar próximo. Precisamos removê-la, antes que a morte prematura lhe arrebate o tesouro da existência.
O santo – altos princípios não me permitem respirar no clima das prostitutas.
O pecador – daí vossas ordens, senhor.
O anjo – não longe daqui, triste menina abandonada pelo companheiro a quem se confiou pretende afogar-se, é imperioso lhe estenda alguém braços fortes para que se recupere, salvando-
se-lhe também o pequenino em vias de nascer.
O santo - não me compete buscar os delinqüentes senão para corrigi-los.
O pecador – determinai senhor, como devo fazer.
O anjo – um irmão nosso, viciado no furto planeja assaltar, na presente semana, o lar de viúva indefesa.
Necessitamos do concurso de quem o dissuada de semelhante propósito, aconselhando-o com amor.
O santo – como descer ao nível de um ladrão?
O pecador – ensinai-me como devo falar com ele!

Sem vacilar, o anjo tomou o braço do pecador prestativo e ambos se afastaram, deixando o santo em meditação, chumbado ao solo.
Enovelaram-se anos e anos na roca do tempo que tudo alterava.
O átrio mostrava-se diferente.
O santuário perdera o aspecto primitivo e a morte despojara o santo de seu corpo macerado por cilício e jejum, mas o crente imaculado aí se mantinha em espírito, na postura de reverencia.
Certo dia sensibilizando mais intensamente as antenas da prece, viu que alguém descia da altura, a estender-lhe o coração em brando sorriso.
O santo reconheceu-o.
- que fizeste para adquirir tanta gloria?
– perguntou-lhe, assombrado.
O ressurgido, afagando-lhe a cabeça, afirmou:
- caminhei.

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